Juventude & Droga: Anjos caídos também se levantam.

Testemunho de um ex toxicodependente, uma lição de vida.

Carlos Manuel G. Carvalho, com 34 anos, nasceu no Bairro da Musgueira Norte, mas com um ano de idade foi viver, para o Bairro da Musgueira sul, com o fim do bairro em 1997, a CML, efectuou o seu realojamento para o Bairro da Cruz Vermelha no Lumiar e lá permanece até aos dias de hoje.

Como é que tudo começou?

Aos oito anos de idade comecei a fumar tabaco, aos nove anos, comecei a fumar umas gansas, e aos 11 anos, dou por mim a dar os meus primeiros passos, no consumo da heroína.

Éramos um grupo de quatro, andávamos sempre juntos, eu era o mais novo, íamos para a Qt. das Conchas ou para a Mata, como quiser chamar, a trás das raparigas, houve um dia, um elemento do grupo, pela primeira vez, ofereceu-me Heroína, recusei, ainda me lembro de um dos rapazes dizer: “ – É pá, se o rapaz não quer, não quer, não o obrigues”.

Porque que recusaste?

Porque tinha medo, não sabia o que era aquilo.

Passado uma semana, voltei a estar com o mesmo grupo, éramos sempre os mesmos, e voltaram a oferecer, “ se não consomes és um chibo”, eu para não ser considerado um chibo do grupo, consumi, e devo dizer que gostei.

Esse foi o meu baptismo, fiquei bem disposto, como tivesse nas nuvens, foi uma adrenalina.

Todas as semanas, o ritual era o mesmo, o encontro era junto ao balneário da Musgueira sul, os mais velhos compravam o material e com  1. 000$00 (5,00€) dava para os quatro.

Depois de consumir, íamos para a zona do intendente, para as casas de jogos, como era menor, ficava horas e horas na rua à espera deles, todos os fins-de-semana arranjava sempre problemas no Metro, ainda fui parar 2 ou 3 vezes à esquadra, como era menor saia logo, os outros saiam passados algumas horas.

Como é que arranjavas dinheiro para comprar a droga?

Os meus “amigos” é que compravam, eu apenas consumia, não tinha consciência a onde é que me estava a meter, para mim era apenas um grupo a onde eu me considerava protegido, no caso de alguém se meter comigo.

Houve um dia, que um traficante, olhou para mim e disse “ Tu já estas agarrado à heroína” ao qual eu respondi “O que é isso de estar agarrado?”.

 Ele explicou-me, “Os teus lábios estão secos, o teus olhos choram, são sinais da ressacar”

Aos 15 / 16 anos, comecei a fumar cocaína na garrafa, como uma pessoa que já faleceu.

Ao fumar pela garrafa, fiquei mesmo desorientado, pensei que fica assim para sempre, mas quando passou, fui comprar mais.

Nunca pensaste parar?

Não, a Heroína, dá cólicas, diarreia, calafrios e só passava, quando voltava a consumir, a Cocaína, dava-me ansiedade, é gulosa, quanto mais fumas, mais queres fumar.

Aos 18 anos, comecei a picar, foi uma nova experiência, inicialmente quando fiz fiquei com bastante medo, por causa da agulha.

Nessa altura, para conseguir dinheiro, ia para a Av. 5 de Outubro, junto à Feira Popular, junto ao Pingo Doce em Entre Campos, arrumar carros, começava as 8:00 horas da manhã.

 Quanto é que ganhavas e quanto é que gastavas na droga?

 Tinha médias de ganhar diariamente, entre 50,00€ a 70,00€, e tudo quanto ganhava era para enterrar na droga, cheguei a vender produto, para poder consumir.

Nessa altura, comecei a dar mistas (speed ball), uma mistura de cocaína e heroína, levas com flash da coca (Branca) e com a Calma da heroína (Cavalo).

 Cheguei a percorrer a Musgueira Norte, Musgueira Sul, Galinheiras, Corraleira,Bairro Alto, Intendente, Anjos, Casal Ventoso, Graça, à procura do melhor material.

Como é que tu sabias que ali se vendia o melhor material?

Porque o pessoal na rua falava uns com os outros e passava a mensagem, que ali não era enganado.

Nesse altura a onde é que tu dormias?

Dormia na rua, no jardim, em carros abandonados. na zona de Entre Campos em Lisboa.

Quando tu andavas nesse mundo, não pensavas na Família?

 Pensava, mas para vir para casa chatear a minha Avó?!, fiquei farto de a chatear!

Estou arrependido do que fiz, se pudesse voltar atrás…. Não queria nada disto, isto não era vida para ninguém, a minha avó e a minha família sofreu.

Eu recordo-me do Bem e do Mal que fiz.

 Já me ofereceram produto recentemente, mas eu respondo em jeito de Graça “ – Não posso comer mistas, queijo fico esquecido e o fiambre fico com borbulhas.”

Meter-se nesta vida é fácil, é uma brincadeira, mas para curar….

Quando alguém disser que é só hoje, está tramado, porque isso é uma desculpa, está pronto para cair, é uma rampa de lançamento.

Eu não cresci!

Com a Droga, fiquei calão, queria dinheiro fácil.

Com vida da Droga, fiquei relaxado.

 Em 2005, foi submetido a um exame médico para avaliar a minha incapacidade, para o trabalho, actualmente recebo uma pensão mensal de sobrevivência, a minha vida resume-se a estar em casa, e não vou para muito longe.

 Estou inserido num programa de metadona; fico bem, mas também dá ressaca, tanto como a heroína, mas não pago e é legal.

 A Dr.ª Maria Mineiro, Médica do Hospital Pulido Valente, a Dr.ª Isabel, a Henriqueta, a Ana Barata do Centro Social da Musgueira, já me deram os parabéns pelos resultados das análises.  

 Tenho o apoio da St.ª Casa da Misericórdia, na higiene e medicação, pago um valor relativo mensal, ao Centro Social da Musgueira, para custear o meu almoço e lanche.

 Gostava de ter alguma coisa para me entreter, para passar o tempo, mas não sei o quê, qualquer coisa.  

A minha esperança é ir mais longe, começar andar e arranjar um trabalho!

 Em meu nome pessoal, e em nome da AMBCV Lumiar, o nosso Obrigado Carlos, fazemos votos que o teu testemunho, possa servir para muitos, que vale a pena lutar e mudar de vida ou então nunca entrar nessa rampa de lançamento.

Tu és um exemplo a seguir, faço votos, que os teus desejos se tornem  realidade.

 Entrevista realizada por: João Carlos Antunes

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