SOL – Dormem à espera que o teto lhes caia em cima

Moradores do Bairro da Cruz Vermelha dormem à espera que o teto lhes caia em cima

À entrada do Bairro da Cruz Vermelha, em Lisboa, vivem quatro famílias em casas à beira da ruína, onde a água escorre pelas paredes, há tetos seguros com barrotes e quem chame casa de banho a um buraco no pátio

 Quem entra no número 134 da Estrada da Torre, no Lumiar, paredes-meias com a Escola D. José I, depara com seis casas à volta de um corredor íngreme, onde vivem quatro famílias constituídas por 15 pessoas.

Lurdes Fialho está ali há 50 anos e salienta que a casa de três divisões acanhadas onde criou três filhos já foi «muito jeitosinha».

«Este senhorio comprou a casa há quase 30 anos e nunca fez obras. Isto foi-se degradando, degradando, e agora durmo à espera que o teto me caia em cima», refere esta mulher de 69 anos e com problemas de pulmões.

Lurdes Fialho partilha aquele espaço com o filho mais novo e a companheira, ambos a viver num quarto improvisado no sótão, para onde se entra através de um buraco aberto no teto, com a ajuda de um escadote de alumínio.

A casa tem as paredes manchadas de negro por causa da água infiltrada, o teto e os armários da cozinha estão suspensos por barrotes e, como chove em cima do guarda-fatos, a roupa está em cima da cama, deixando espaço apenas para o descanso de um corpo franzino.

A mesma história de instalações precárias, sem condições de segurança nem de salubridade, repete-se na casa onde Manuel e Virgínia vivem com três filhos adolescentes e duas netas e na de Adelina, cabo-verdiana com três filhos numa casa com um quarto, que custa 125 euros mensais.

Ao lado, da cozinha de Maria do Sameiro vê-se uma nesga de céu por entre as telhas.

O teto caiu-lhe em cima há quatro ou cinco meses e, desde então, recusa-se a pagar a renda de 100 euros.

«O senhorio diz que está à espera de uma solução da câmara. Eu agora não pago. Quando tiver a solução logo se vê», conta, meio português, meio crioulo, no meio dos seus quatro metros quadrados de cozinha que também é sala de jantar e de estar.

Maria não tem casa de banho. A sua higiene diária é feita num buraco a céu aberto no corredor exterior, partilhado pelos vizinhos, que já antes dos esgotos servia para os moradores despejarem os respectivos dejectos.

«Todos os vizinhos sabem que eu faço ali. É ali que me lavo», refere, enquanto aponta para a sua casa de banho pública, sem paredes nem privacidade.

Há seis anos, quando o senhorio deitou a responsabilidade para cima da autarquia, os moradores foram à câmara levar documentação e explicar a situação em que se encontram. Já voltaram várias vezes e queixam-se da falta de soluções.

Em Janeiro, uma vistoria dos bombeiros aconselhou que estes moradores saíssem dali com urgência, mas eles permaneceram, alegando falta de recursos e falta de segurança do bairro.

«Se se soubesse que saímos para alguma pensão, no dia a seguir não teríamos cá nada em casa», considerou Lurdes Fialho.

A Câmara Municipal de Lisboa admite conhecer este caso, mas a vereadora responsável pelo pelouro da Habitação, Helena Roseta, afirma que ainda não tem uma resposta para dar.

«Vão ter uma resposta, seguramente. Tudo o que seja processo de realojamento é prioritário, mas primeiro estamos a estabelecer quais os casos mais graves, consoante os recursos que temos disponíveis», sustentou a vereadora.

Fonte : Lusa / SOL (01.12.2009)

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